{6 de outubro de 2026}
Posso ficar em dúvida sobre várias coisas a respeito do entendimento desse sonho. Apenas uma conclusão me parece inevitável: não indica que eu esteja vendo com clareza minha própria situação atual.
De cara mexo numa série de materiais, que aparecem como se fossem vídeo que tem materialidade, como fotos, todos eles sobre a história dos antepassapos e da ancestralidade da família do Dan.
Sim, Dan Stulbach. Numa sesão passada eu faei para a Sandra sobre ancestralidade. Esse parece ser o único link do sonho com as experiências da vida acordada.
A situação seria a seguinte. De uma forma já bem recorrente, eu, de livre e espontânea vontade, havia me oferecido para criar uma espécie de documentário com esse material. Nem que o Dan tivesse mencionado a necessidade disso, mas eu havia me oferecido, ele havia se entusiasmado e pronto, aqui estava eu com mais uma tarefa pesada que, isso ficava claro naquele momento, eu nunca havia de fato desejado fazer.
Nem sei explicar por quê havia me oferecido. Me oferecer era meio que automático, é tudo o que me ocorre.
E ali, revendo o material, eu sentia não exatamente uma incapacidade, mas uma ausência tão grande de vontade, que eu teria, como Kafka uma vez mencionou no seu diário, que me forçar pra caramba.
Na verdade ali, percebendo a besteira que tinha feito de me envolver com aquilo, a única saída me parecia me forçar a ter alguma idéia rápido para me livrar disso o mais rapidamente possível.
Mas eu não estava conseguindo me forçar a me forçar.
Bem isso mesmo. Não que me sentisse sem idéias ou incapaz de ter idéias, mas eu não conseguia me forçar a me forçar a ter idéias para acabar logo com isso.
Fica um bom tanto nisso.
E então, sem que isso esteja resolvido, a coisa deriva para o seguinte.
Foi um desses sonhos sem uma story live coerente, então tenho que ser cuidadosa ao relatar.
Ainda pensando em como ter uma idéia sendo que nem quero pensar no assunto, estou deitada numa cama de solteiro e no chão, na parte do chão acima da minha cabeceira, está deitado o Dan, mas ele não é mais o Dan. É outro homem no corpo do Dan, e esse homem tem uma consistência geral muito frágil. Parece doente.
Mesmo assim, sou eu que recorro a ele como meu apoio, e estendo a mão para ele e ele ergue uma mão ossuda e longa e magra e branca para mim e segura minha mão e dormimos assim, de mão dadas. Mesmo no sonho eu lembro do outro sonho em que eu segurava a mão de um homem em momentos de certa ameaça.
Mas o que lembro agora escrevendo é que, mesmo discordando do que a Louise Hay afirma a respeito dos sonhos se desdobrarem a partir dos últimos pensamentos do dia, ontem por ironia pensei no sonho da mão linda do salva-vidas.
Mas essa não era uma mão linda, aliás, nem mesmo uma mão muito masculina.
E então tento deixar a Gregório. Mas me percebo, assim como no sonho do fofão na porta, me delongando, me delongando, me delongando, devido a dois fatores: fazer mais um xixi e fome.
E então, esse homem que seria uma variação do Dan e que está ainda mais distante do Dan, relembrando, naquele momento, o Aratangy, um menino da minha classe do Colégio Cristo Rei, meio rebelde, com ar de James Dean. Não era dos galãs da classe mas tinha seu charme entre as meninas.
Esse rapaz foi me pegar em casa e aí sim, numa postura muito masculina, me enfiou no carro dele e, junto com mais dois amigos dele, está indo comigo na direção… como se seguisse ali pela Cerro Corá sem entrar a direita na rua Bairi para ir para a casa dos meus pais na Lapa.
Isso sim parece um símbolo bom. Estou sendo levada por uma força Yang para longe da malfadada casa dos meus pais, onde só aconteceu desgraça.
E a minha sensação é muito predominante e prevalece sobre todo o restante do sonho.
Eu estava, e isso só se configura quando estou dentro do carro dele, em total anuência sobre esse desvio das minhas obrigações, tentando concluir a faculdade.
Não. Tentando concluir algo que misturava colégio com faculdade.
E me afudando cada vez mais em aulas que eu não assistia, matérias que não fazia idéia de quantas provas havia perdido, e uma sensação que experimentei muito na FAU, de me sentir incapaz de tomar as rédeas da situação, acredito mesmo que Deus fez com que eu fosse praticamente exonerada da faculdade, pois os professores viram que eu era uma sem solução, melhor se livrar logo dela, ela só vai dar canseira.
Mas no sonho, eu ainda me econtrava tentando e tentando, e quando o Arantangy me rapta, no bem sentido, eu penso comigo, meio assustada mas achando bom:
– Mas eu vou faltar na aula!
Nesse momento, como os sonhos costumam fazer com a maior naturalidade, duas coisas opostas são, ao mesmo tempo, verdade.
Ao mesmo tempo que eu era uma nerd CDF que nunca teria faltado na aula, coisa que fui até entrar na facul, eu era a vagal que estava perdendo totalmente o controle sobre minha continuidade acadêmica e parecia que eu nunca, nunca, nunca iria conseguir completar a faculdade. Aliás, me sentia incapaz até mesmo de apurar o que faltava para que eu completasse a faculdade. Estava acima da minha capacidade. E então, fico mega feliz do Aratangy ter me tirado disso, ainda mais porquê ele comenta, virado para mim, do banco do passageiro na frente, que estávamos indo comer.