PORQUÊ EU NÃO AGRADO

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{30 de novembro de 2003}

Eu tinha mais ou menos a idade que tenho agora, e saio com um grupo à noite, para jantar e se divertir. Nesse grupo tem vários amigos meus, tipo o Edu e o Arrepi, e também estão uns três rapazes solteiros interessantes. Um deles é um americano loiro bonitão.

A noite transcorre bem, eu falo com todo mundo, rio, estou a vontade e, apesar dos solteiros, sem expectativa nenhuma. 

No almoço do dia seguinte estou em minha casa, que é uma casa que eu não conheço, parece um pouco a casa dos meus avós. Estou sentada na mesa com meu pai e minha mãe, e uma figura feminina que eu não conheço.

Sem que eu toque no assunto, essa figura feminina começa a dizer que eu não tinha agradado a nenhum dos moços solteiros na noite anterior. Os três tinham me rejeitado. Fico confusa, por que tinha estado bem ao natural mesmo. Pergunto para ela a razão. Ela me diz que o americano loiro tinha desgostado muito de mim.

Mas porque, porquê, eu pergunto, e ela responde: Ah, você não é meiga. Você não é nada meiga.

Fico mais confusa ainda. Justamente meiga, que todo mundo me diz que eu sou. 

Falo para ela: mas eu sou meiga, todo mundo me diz que eu sou!

Mas a figura feminina é irredutível e balança a cabeça, dizendo que não. Levanta e sai.

Fico confusa imaginando se por acaso o fato de eu estar com meus amigos lá tenha me deixado menos meiga. Começo a fazer planos para me tornar mais meiga ainda. Será que eu vou poder rir? Rir é meigo? Será que só vou poder falar de coisas meigas? Passarinhos e flores?

Minha mãe fala alguma coisa que os dois outros rapazes também não tinham gostado de mim. 

Mas porque, mãe? Eu pergunto. Ela começa a responder mas a resposta se dissolve. Mais uma vez não fica claro porque eu não agrado aos homens.

Meu pai fala uma coisa em tom de brincadeira. Parece ser um elogio. Ele começa dizendo que uma moça que tinha me conhecido tinha me elogiado, dizendo que eu era muito bonita e estava muito bem para meus 50 anos.

Fico pasma. 50 anos? Ela achou que eu tenho 50 anos? 

Pergunto para ele: pai, quantos anos ela achou que eu tinha?

Mas meu pai está rindo e achando que fez uma piada muito engraçada e não responde. Repito a pergunta, ele também não responde.

Me machuca muito o jeito dele estar gozando de mim numa coisa tão séria e delicada quanto esse assunto, mas sei que ele não faz por mal.

Eu dou uma bronca nele, digo: pai, pára com isso! Você como pai não pode fazer graça com assunto que magoam as filhas!

Ele pára de rir e me olha meio confuso. Sinto que minha mãe acha que eu tenho razão.

Eu vejo que meu pai ainda não entendeu qual é o problema. Ele é assim mesmo, não tem percepção, eu sempre tenho que explicar para ele. Mas ele não tem intenção de magoar.

Eu falo: você como pai não pode brincar com coisas que você sabe ou deveria saber que são as mais delicadas para uma filha. É conflito de interesses. Você acha que eu faria piada com a sua velhice? Com a sua aposentadoria?

Ele finalmente entende e sai da sala, chateado com ele mesmo. Vou atrás dele por que quero continuar falando sobre isso e também quero que ele me diga quantos anos a tal moça achou que eu tinha e assim talvez eu consiga entender porque eu nunca agrado aos homens.

Mas não consigo alcançar meu pai, que dá voltas pela casa. Finalmente vejo que ele entrou em uma sala e vou pode falar com ele. Minha mãe não está mais comigo e isso me dá uma certa insegurança, mas eu me sinto capaz de fazer isso sozinha.

PORQUÊ EU NÃO AGRADO

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