{15 de outubro de 2026}
Então fica esses enredos recorrentes uma vida inteira, uma vida inteira repetindo e repetindo e dá muita aflição, o que é que sou tão incapaz de entender?
A saga da coisa na minha boca que quero cuspir mas não encontro pia limpa, só pias emporcalhadas.
A saga do carro desgovernado ou da variação na qual eu me perco no limite da exaustão em caminhos errados, e nem tenho mais forças para tentar me acertar, fico girando automaticamente num looping de caminhos errados.
E essa relativamente recente saga das gravações caóticas.
Até que um dia...
Encontro uma pia limpa.
Estou já em pleno andamento de gravação, num set com a equipe ali e dessa vez, uma variação que acredito não ser aleatória: tudo da minha parte está organizado.
Não tem aquela coisa de ter que resolver tudo, desde rotiro até figurino, em plena gravção.
Mas dessa vez o que interfita a gravação é que eu não tenho colaboraçao nenhuma da equipe, muito pelo contrário. Estão todos com má vontade e agindo no sentido contrário do que seria para que tudo fluisse bem.
A primeira cena que iriamos gravar seria num canto desse set, que tinha uns equipamentos infantis, um puff grande e colorido acho que imitando um dado, uma bola dessas parecidas com a que minha mãe tinha, que seria tipo um cantinho para crianças mesmo, sendo o espaço todo aberto sem divisóias internas, como um loft.
Esse cantinho para crianças compõe muito bem um ambiente de agência de publicidade, que tem aquele concetio "lúdico", para passar para os estressados e sobrecarregados funcionários a ilusão de que não estariam de fato num ambiente de trabalho.
Para mim estava ótimo e não precisaria alerar nada. Já tinha posicionado os atores, entre eles o Luciano, seria uma cena do J, ali sentados e vou até não sei onde e volto e até aí tudo correndo bem, mas quando volto, o Luciano tinha modificado o cenário, colocando uma mesa coberta com um cobertor, não uma toalha de mesa, um cobertor mesmo e cadeiras em volta.
Ek faz isso da cabeça dele e até acho que com boa intenção, mas fico muito irritada, agora tenho que colocar tudo de volta, não vejo onde ele colocou os brinquedos, vai me atrasar um monte.
Luciano, se algum dia você vier a ler isso, siba que difere totalmente da realidade.
E enquanto estou tentando me organizar para superar esse obstáculo, percebo que o Luciano não colocou o figurino combinado e colocou uma roupa que destoa totalmente do J, coloridinha.
Digo a ele:
– Mas você tem alguma camiseta branca lisa? Ou qualquer coisa lisa?
Ele reage muito contrariado, fazendo corpo mole para mudar de roupa e claramente tentando impor ali a sua escolha me vencendo pelo cansaço.
Diz que não trouxe nada branco ou preto ou liso.
Vai buscar o que tinha trazido com ele e volta com um casaco absurdo, todo estufadinho, com uns bolsinhos.
Agora me lembrou o casaco que o anjo que se apaixona pela trapezisra compra.
nnao deve ter sido acaso o Win Wenders ter escolhido para ele aquele casaco bizarro. quase ridículo, ou melhor, sim, ridículo, ao invés de uma roupa de galâ. Deixa o romance dos dois mais realista. As pessoas se vestem mal.
Aqui no caso o casaco era mais para o boiola que ridículo.
– Mas isso não tem nada a ver com o J, eu digo, procurando me controlar ao máximo para aquilo não virar uma contenda.
Bufando, o Luciano vai trocar o casaco por algo até que razoável, algo neutro, só que volta com umas calças marrom bufantes, como calça de pirata ou do Alladin.
Como eu disse, ele está claramente se fazendo de desentendido para tentar se impor pelo cansaço.
E é o que sucede, pois eu vejo que ele não vai colocar um figurino adequado e eu vou ficar perdendo mais e mais tempo ali com esse assunto, então vou tentar adiantar as outras coisas.
Aqui embaralha um pouco.
Tinha dito a ele para repor o cenário de brinquedos, mas quando olho, ele se sentou ali no cenário errado, numa rodinha com atores e estão batendo papo, Eu não só teria que recolocar o cenário sozinha como teria que deslocar todo mundo antes disso, meus probelmas aymentaram.
Aqui devo dizer que apesar da figura do Luciano ser a quase que principal nesse contexto de má vontade e descolaboração, seria algo geral na equipe, que está se perdendo em bate papo e quase parece esquecida da gravação.
Uma única vez isso quase que começou a rolar na gravação no Belas, na qual todo mundo ficou meio que aéreo, fazendo social entre si e descendo para gravar sem figurino, foi a noite em que me senti tão depauperada e exaurida que sangou muito de noite.
Aqui seria bem isso. E sinto uma espécie de antipatia contra mim, como se eu é que estivesse criando problema para eles.
Para refrescar a cabeça, saio para o páteo e vejo ali na bancada a refeição que há estava sendo preparada por duas moças cozinheiras, tudo arranjado e financiado por mim.
Até o momento eu não tinha con conseguido gravar ou nem mesmo preparar a gravação de uma única cena, tudo por causa dos atores que agiam como se estivessem me fazendo um enorme favor.
E nisso...
– Vou embora, eu penso.
Me vêm um instante de alarme quando me ocorre esse impulso. Como assim, vou largar a gravção no meio? E o que isso iria acarretar?
– É tudo um sonho, penso comigo, como uma auto resposta. Posso fazer o que quiser.
Posso fazer o que quiser.
E isso me liberta.
Deixo uma mensagem gravada incorpórea, como se fosse uma espécie de whatsapp incorpóreo.
– Equipe, não vou mais gravar. Vocês podem almoçar. Todos serão pagos de acordo com o que fizeram ou não fizeram.
Apenas isso, seco e direto.
E eu
Vou embora.